UMA FACA DO INICIO AO FIM : 3 - TRAT TÉRMICO-EDUARDO BERARDO

Segundo a Wikipédia, Cutelaria, armiaria ou armoaria é a arte ou ofício do cuteleiro ou cutileiro, armiário, armoário ou acerador, ou seja, a pessoa que fabrica ou vende instrumentos de corte.

São produtos da cutelaria, portanto, espadas, adagas, facas, facões, machados, punhais, navalhas ou seja, todos utensílios metálicos de corte.

Temos agora em nossa Casa um Fórum específico sobre esta milenar arte, há 2,5 milhões de anos o homem já forjava seus primeiros instrumentos de corte ...

E não existe Pescador que não seja apaixonado por belas facas ... Bom proveito Amigos ...
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NELSON MACIEL
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UMA FACA DO INICIO AO FIM : 3 - TRAT TÉRMICO-EDUARDO BERARDO

Mensagem por NELSON MACIEL » Sex Mar 18, 2016 7:55 pm

O Mestre Cuteleiro Eduardo Berardo elaborou uma série de seis postagens em seu Blog, os quais, com sua devida autorização, foram reproduzidos em nosso Fórum sobre Cutelaria ...

Boa leitura Amigos ...


Uma faca do início ao fim: 3.Tratamento térmico

Dando prosseguimento em nossa caminhada do início ao fim de uma faca, vamos abordar hoje provavelmente a etapa mais "importante" entre todas.

Obviamente, todas elas são imprescindíveis e interligadas, igualmente responsáveis pelo resultado final.

Mas é o tratamento térmico que confere ao aço as qualidades míticas que lhes tem sido atribuídas há séculos.

Se corretamente aplicadas, teremos:

1. Dureza;

2. Tenacidade: capacidade de sofrer deformação e voltar ao estado inicial, sem deformar-se ou romper-se; e

3. Retenção de fio.

Vamos lá! Que Deus seja com cada um de nós!


TABELA DE TRATAMENTO TÉRMICO LIGA SAE 1095 E 15N20:

Recozimento: 770°C, apenas 1 ciclo, resfriamento em manta.

Normalização: 855°C, apenas 1 ciclo, resfriamento em ar tranquilo.

Têmpera: 800ºC, apenas 1 ciclo, em óleo de baixa viscosidade.

Revenimento: 210°C, 2 ciclos de 1 hora cada, resfriamento em água entre os ciclos.


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Lembrem-se de que para esta liga de 1095 e 15N20, devido a possibilidade de encruamento, optei por fazer um recozimento, o que foi demonstrado no artigo anterior.
Assim, antes da têmpera é obrigatório que se faça ao menos um ciclo de normalização, que para esta liga recomenda-se 855° C.

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Enquanto atinge a temperatura, um café e um tempo pra pensar na vida e falar com Deus.

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Cuidado a retirar as lâminas do forno.
Se batê-las ou derrubá-las, podem entortarem-se.

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Cuidado também com queimaduras.

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Deixe-as esfriar em ar tranquilo, preferencialmente penduradas, pois se apoiadas sobre qualquer superfície, o resfriamento será irregular.

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Aqueça previamente o óleo de têmpera, ou o diesel, que é o meu caso.
A temperatura de melhores resultados para têmpera é a de 60°C.
Lembre-se do fenômeno da inércia térmica, onde mesmo após desligar o
fogo, o óleo continua subindo de temperatura por alguns graus.
Na minha região que é muito quente, no verão eu desligo o forno aos 52ºC e no inverno aos 56ºC. Em ambas as ocasiões chego aos 60°C.

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Para preservar meu forno, fiz uma moldura/cabide com cantoneiras e ferro em chapa.
Mantenha as facas desencostadas das paredes durante o aquecimento, para que este se dê mais regularmente.

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Esse equipamento é absolutamente indispensável à uma oficina de cutelaria!
Segundo orientações de meu amigo Major Carnevale, do Corpo de Bombeiros, o mais adequado é o de pó químico, pois apaga incêndios elétricos e em líquidos combustíveis.
A validade de um destes é de 4 anos.
Excelente investimento na sua própria segurança.
Tenho o meu sempre à mão especialmente após meu acidente ao temperar uma espada, onde quase incendiei minha casa!

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Temperatura de têmpera: 800ºC.

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O aço 1095 é muito exigente com relação à têmpera, seja em uma lâmina de carbono, ou compondo uma liga de damasco.
Faz-se necessário um resfriamento de 550°C no primeiro segundo.
Para tal é necessária uma manobra rápida e precisa entre o forno e o óleo.
Recomenda-se óleo de baixa viscosidade, menos denso.
Óleos muito densos, como por exemplo os óleos vegetais, muito usados hoje, não atendem às necessidades de resfriamento veloz desta liga.
Pode-se usar óleo de têmpera ou diesel.

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Prefiro um recipiente largo por alguns motivos:
1. A base maior evita tombamentos e consequentemente incêndios;
2. A maior quantidade de óleo absorve mais facilmente a temperatura,
sem inflamar com facilidade. Se inflamar, forma uma chama pequena que pode ser apagada com um assopro forte, ou tampando o recipiente.
3. Permite que se agite bastante a lâmina no sentido longitudinal (dorso/fio) proporcionando excelente resfriamento.
Para facas de cozinha, faço têmpera full hard, ou seja, tempero a lâmina toda.
É dispensável a têmpera seletiva, pois tratam-se de facas que não cortarão mediante impacto durante o uso normal.
Caso se pretenda cortar uma sequoia ou ir pra guerra com uma faca de Chefe de Cozinha, recomendo a seletiva!

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Após a têmpera, limpe a lâmina com um pano seco, removendo o óleo para que seu forno não fique com o cheiro deste.
Cuidado para não derrubar a lâmina após a têmpera e antes do revenimento, pois ela se encontra em sua dureza máxima e pode quebrar-se!

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Caso sua oficina fique fumaceada, ligue seu ventilador apontado para fora, em uma porta ou em uma janela. Ligá-lo internamente apenas
faz circular a fumaça, mas não a remove do ambiente!

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Local de meu extintor de incêndios na área de forjamento.
Quando tempero, o deixo ao meu lado!

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Facas prontas para o revenimento: 1 hora à 210ºC;
Resfriamento em água para evitar a formação de carbonetos; + 1 hora à 210°C;

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Resfriando na água entre os ciclos.

Imagem[img]
Aspecto da lâmina após o revenimento.


Em breve estarei postando as próximas etapas.
Acompanhe! Compartilhe!
Nelson Maciel
/ctf
FÓRUNS CATERVA - UM MARCO NA PESCA ESPORTIVA DO BRASIL !
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